Um título de dança, não uma balada old-time
Blue-Eyed Stranger parece nome de canção romântica. Na documentação consultada, porém, é antes de tudo uma melodia do morris Cotswold inglês e uma dança com lenços. The Morris Ring a coloca na tradição de Headington e conserva mais de uma versão escrita ligada ao lugar.
Isso corrige uma classificação comum: esta peça não é apresentada nas fontes como old-time norte-americana. Também não há base para transformar o “estranho de olhos azuis” em personagem histórico. Os documentos falam de músicos, dançarinos, coletores e variantes; não identificam uma pessoa nem estabelecem uma letra única.
O Boxing Day de 1899
Em 26 de dezembro de 1899, seis dançarinos de Headington Quarry, perto de Oxford, apresentaram-se diante de Sandfield Cottage. Cecil Sharp passava o Natal ali com a família. O músico era William “Merry” Kimber Jr, pedreiro, dançarino e tocador de concertina anglo, com 27 anos.
Às vezes o episódio é reduzido a uma descoberta por acaso. Na realidade, Dora Birch, sogra de Sharp, conhecia Kimber por trabalhos de construção e insistira para que ele levasse o grupo. Como o frio impedira o trabalho dos homens da pedreira e da construção, eles saíram para dançar e ganhar algum dinheiro. Tocaram Laudnum Bunches, Bean Setting, Constant Billy, Blue-Eyed Stranger e Rigs o’ Marlow.
Kimber voltou no dia seguinte e Sharp anotou as cinco melodias. Constant Billy e Blue-Eyed Stranger ficaram juntas na referência de campo FT44. A escrita deu à música uma rota nova pelo século XX, mas não fez de Sharp seu compositor. O repertório já vivia na família e na comunidade de Kimber.
Como o movimento entrou num livro
Em 1899 Sharp conseguia registrar a melodia, mas não dominava um método para fixar passos e figuras. Mais tarde, Kimber ensinou as danças de Headington às integrantes do Espérance Girls’ Club, dirigido por Mary Neal em Londres. Herbert MacIlwaine elaborou a notação e trabalhou com Florrie Warren, principal dançarina do clube, para descrever os movimentos.
A primeira parte de The Morris Book, publicada em abril de 1907 por Sharp e MacIlwaine, nasceu dessa colaboração. O volume reúne a tradição vivida por Kimber, a coleta e divulgação de Sharp, o conhecimento corporal de Warren, o sistema de MacIlwaine e o trabalho das mulheres do Espérance em ensaios e apresentações.
Portanto, “coletado” não quer dizer “preservado sem mudança”. The Morris Ring reconhece diferenças entre manuscritos, edições e a prática atual. A publicação espalhou a dança, mas também transformou decisões de um grupo específico em algo que leitores posteriores poderiam tomar por padrão definitivo.
O que os lenços fazem durante a música
The Morris Book classifica Blue-Eyed Stranger como handkerchief dance, dança de lenços. Seis pessoas formam duas filas, cruzam posições, fazem uma corrente, passam de costas umas para as outras e voltam a se encarar. Num trecho característico, todo o grupo marca o passo no lugar por oito compassos, balançando braços e lenços no pulso.
Se houvesse energia, a sequência podia durar os dezesseis compassos completos da música B. Assim, a repetição musical tinha função física: sustentava figuras, saltos, deslocamentos e a chamada final. Quem toca para dançarinos precisa oferecer um chão rítmico seguro. Flexibilidade é possível, mas rubato imprevisível prejudica os pés.
O livro de 1907 também contém ideias de sua época sobre gênero, nação e vigor. Seu valor atual está em registrar a coreografia publicada e os métodos do revival, não em definir quem pode dançar morris hoje.
Uma relação com 1725, não uma certidão de nascimento
Sharp e MacIlwaine relatam que o historiador Frank Kidson via Blue-Eyed Stranger como variante de The Mill, Mill, O, impressa em 1725 no Orpheus Caledonius. Eles também apontaram semelhanças com Just as the Tide Was Flowing.
É uma pista de parentesco melódico, mas não prova que a dança de Headington tenha sido composta em 1725. Uma variante pode compartilhar contorno ou frases sem guardar uma linha direta e documentada de autoria. A conclusão segura é mais limitada: um especialista do começo do século XX reconheceu um parente impresso mais antigo.
O próprio título circulou com sons diferentes. Bancos de dados registram formas ligadas a Headington, Bucknell, Field Town e outras tradições. O Winster Wakes Archive avisa que a Blue Eyed Stranger de Winster é uma melodia diferente da versão de Oxfordshire anotada por Sharp. Na transmissão oral, nome e música nem sempre permanecem unidos.
Do chão da aldeia ao Royal Albert Hall
Livros, aulas e demonstrações levaram o repertório para além de Oxfordshire. O arquivo do Royal Albert Hall inclui Blue-Eyed Stranger no programa do All-England Festival of English Folk Dance and Song, em 3 de janeiro de 1931. William Kimber esteve entre os participantes, e Ralph Vaughan Williams foi um dos regentes.
A gravação sonora preservou outra camada. A coleção Folktrax lista Blue-Eyed Stranger entre as danças que Kimber tocou na concertina anglo. O primeiro conjunto foi gravado em estúdio em 1946 e 1948, e outras sessões aconteceram em sua casa durante os anos 1950. Ataque, acompanhamento e elasticidade de frase ficam audíveis de um modo que a pauta não consegue guardar sozinha.
Nem o palco nem o disco fixaram a última palavra. O grupo de Headington passou por intervalos e reorganizações; músicos posteriores aprenderam com pessoas, livros, manuscritos e gravações. A continuidade da peça é uma sequência de escolhas renovadas.
Estudando o arranjo da Whisflo
A partitura atual conserva a forma compacta de Headington: 12 compassos em 2/4 a 120 BPM, com extensão de G4 a A5. Usa G, A, A♯, C, D, E e F. Num centro em C, o A♯ escrito funciona como B♭, produzindo cor mixolídia. Na harmônica cromática em C, essa nota pede o botão; solte-o por inteiro antes de voltar para A ou C.
Comece em 72 BPM e divida em compassos 1–4, 5–8 e 9–12. O primeiro grupo apresenta a resposta grave; o segundo sobe até A5; o último retoma o desenho agudo e fecha com a cadência inicial. Isole A–A♯–C até o botão entrar na linha sem criar um acento.
Mantenha as sequências de semicolcheias leves e o compasso estável. O A5 não precisa de sopro forte, mas de ar focado. Só aproxime o metrônomo de 120 quando os três blocos puderem ser repetidos com a mesma clareza. Essa repetibilidade é parte do caráter de dança.
Última verificação: 31 de julho de 2026
Fontes e leituras complementares
- 01 Kimber, William Cecil Sharp’s People / Vaughan Williams Memorial Library records · 2019
- 02 Headington tradition and tunes The Morris Ring
- 03 Blue-Eyed Stranger, Headington 1 — Morris Dance Tunes ABC The Morris Ring
- 04 The Morris Book, Part I Project Gutenberg — Cecil J. Sharp and Herbert C. MacIlwaine · 1907
- 05 Cecil Sharp and English Folk Song and Dance before 1915 Country Dance & Song Society — Derek Schofield · 2016
- 06 All-England Festival of English Folk Dance and Song Royal Albert Hall Archive · 1931
- 07 FTX-382 — Bean Setting: William Kimber Folktrax Archive · 1946
- 08 The Gwilym Davies Morris Tunes Database Morris Dance Database
- 09 Joe Rains and the Winster Blue Eyed Stranger Winster Wakes Archive
- 10 Among the Many — digital booklet Topic Records · 2012